poem: Paleativos Paleolíticos
[Nome], quero esclarecer bem a minha posição porque não quero que a interpretes como difamação dos profissionais de saúde. Muito pelo contrário: tenho respeito profundo por quem dedica a vida a cuidar dos outros.
Ontem fez cinco anos que a minha mãe faleceu. E ela foi paciente paliativa porque tinha um cancro metastático avançado. Eu vi como rapidamente se desfaleceu quando foi posta num lar, e afastada de mim. No entanto, previamente, insistia no facto da sua medicação estar demasiado forte, e a médica confirmou isto.
O que tentei mostrar com a banda desenhada foi uma crítica simbólica a algo que considero um risco humano geral — não exclusivo da medicina: o risco da *desproporção* e da *conveniência*. Somos todos falíveis e, quando lidamos com poder e autoridade, podemos cair na tentação de atalhar, de aliviar a superfície em vez de tratar a essência.
No caso dos paliativos, sei que a prática bem feita é de titulação proporcional e reavaliação constante. Sei também que a intenção correta é aliviar o sofrimento do doente, e não duvido de que a esmagadora maioria dos profissionais segue este princípio com dedicação. O meu ponto não é negar isso.
Mas digo que, por vezes, pode haver *excesso* — e não falo apenas de overdose explícita, mas também de efeitos subtis: perda de consciência indesejada, diminuição da capacidade de se despedir, agravamento de dano físico por falta de sinal de dor, ou até aceleração indireta da morte. Isso pode acontecer mesmo com boas intenções, sobretudo se o contexto ou a pressão favorecerem atalhos. E, sendo raros ou não, esses casos merecem atenção porque revelam a fragilidade ética a que todos nós, como humanos, estamos sujeitos.
Portanto, não estou a acusar médicos, enfermeiros ou farmacêuticos de má prática. Estou apenas a lembrar que também eles são pessoas, não “outra espécie”, e que como qualquer pessoa podem errar. Para mim, falar disto não é falta de respeito — é justamente um sinal de confiança: acredito que tu, pela tua ética e consciência, não te deixas limitar por conveniências ou aparências.
No fundo, a minha posição é simples: *a vigilância ética nunca é demais*. Mesmo quando a prática é quase sempre correta, precisamos de lembrar que o risco de desvio existe, e que quando acontece pode ser muito grave.